Lobisomem: A Fera interior e a loucura.

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Lobisomem: A Fera interior e a loucura.

Mensagem por Albrecht em Sex Fev 03, 2012 3:29 pm

Bom dia amigos do Fórum!

Hoje gostaria de compartilhar com vocês um pouco da lenda do "homem lobo". Presente em vários jogos, filmes, contos e romances. Muitos de nós sabemos um bocado sobre este assunto, afinal de contas quem nunca enfrentou um lobisomem em uma mesa de RPG (Seja em storyteller ou D&D)?

O que poucos sabem é que como toda a lenda, esta possui seus fundos de verdade. Até que ponto é ficção e onde entra o real irá de acordo com o imaginário e o ceticismo de cada um de nós. Chega de lenga lenga! Vamos ao que interessa!

1. A lenda.


O Lobisomem tem origens Europeias que segundo a lenda nas noites de lua cheia um homem com algum castigo divino pode se transformar em lobo, sendo que na manhã seguinte volta a ser humano. Algumas lendas dizem que o indivíduo pode até mesmo se transformar por vontade própria, enquanto outras relatam uma total perda da consciência, fazendo com que o "infeliz amaldiçoado" acorde em algum lugar estranho coberto de sangue. O Lobisomem possui diversos nomes. Um para cada região de onde se tem sombra ou boatos de sua aparição. Um dos motivos para esta lenda ser tão fascinante é que ela não é "local", há diferentes fontes, de povos que nem sempre tiveram alguma ligação. Ele pode ser chamado também de:

Licantropo - Pelos Gregos
Versipélio - Romanos
Volkodlák - Eslavos
Warewolf - Saxões
Wahrwolf - Alemães
Óboroten - Russos
Hammtammr - Nórdicos
Loup-garou - Franceses
Lobisomem - Na Península Ibérica e America do Sul

Eu não sei até onde a ignorância do ser humano pode chegar, mas após o terremoto no Haiti, algumas pessoas foram mortas sob a alegação de serem Loup-Garous.

É difícil apontar a primeira referência do mundo aos lobisomens. Um dos mais antigos escritos conhecidos "A Epopéia de Gilgamesh", é um candidato provável. Nele, Gilgamesh recusa-se a ser amante da deusa Ishtar por causa do comportamento cruel dela com os seus pretendentes anteriores. Ishtar transforma um pastor de ovelhas, em um lobo, fazendo-o inimigo de seus amigos, de suas ovelhas e até mesmo de seus próprios cães.

Ishtar não é a única divindade antiga a transformar um mortal em lobo. Na "Metamorfose," de Ovídio, um viajante chega a casa do rei Lycaon da Acádia. Lycaon suspeita que o visitante seja imortal, assim ele lhe propõe um teste. Ele serve carne humana ao seu convidado, que infelizmente se transforma no Deus Zeus. O Rei dos Deuses reconhece a origem da carne imediatamente e transforma Lycaon em lobo. Tanto o nome Lyacon quanto o termo licantropia vem da mesma raiz - o termo grego lykos, que significa lobo.

Ambos os escritos anteriores são antigos e sugerem que a ideia de homens se transformando em lobos tem habitado o mundo desde os primórdios da civilização humana. Além de antiga, a ideia é amplamente difundida. Na maioria dos lugares, se um lobo vive ou viveu em uma região particular, os contos folclóricos dessa região incluem os lobisomens. Nas regiões onde não existem lobos, as histórias falam de pessoas que se transformam em outros animais carnívoros. Histórias vindas de partes da África (em inglês) falam de pessoas que se transformam em hienas ou crocodilos. Nos contos folclóricos chineses, as pessoas se transformam em tigres, e em histórias japonesas, elas viram raposas. Algumas histórias russas descrevem pessoas que se transformam em ursos.

Em todas essas histórias, temos pontos em comum:

-O animal que a pessoa se torna é um carnívoro poderoso, grande - ele é assustador mesmo sem intervenção sobrenatural;
-Ao sofrer a transformação, a pessoa vira algo que amedronta, não tendo como escapar;
-Se a licantropia for transmitida por uma mordida, a vítima enfrenta a ameaça contínua de sofrer espantosas transformações indefinidamente se sobreviver ao encontro.

2. Loucura

Licantropia clínica é uma rara síndrome psiquiátrica na qual a pessoa afetada sofre a ilusão de poder se transformar, ou de fato ter se transformado, em um animal, ou que tal pessoa é, de alguma forma, um animal. A palavra é derivada da condição mitológica da Licantropia, uma aflição sobrenatural na qual as pessoas se transformam fisicamente em lobisomens. A palavra zooantropia é algumas vezes usada para a ilusão de que uma pessoa se transformou em um animal qualquer, e não especificamente em um lobo.

Indivíduos afetados relatam a crença ilusória de que se transformaram, ou que estão no processo de se transformar em outro animal. Já foi relacionada com as alterações de estado da mente que acompanham a psicose (o estado mental distorcedor da realidade que, tipicamente, envolve ilusões e alucinações), sendo que a transformação aparentemente só ocorre na mente e comportamento da pessoa afligida.
Um estudo em licantropia do Hospital McLean[2] relatou uma série de casos e propôs alguns critérios diagnósticos através dos quais a licantropia poderia ser reconhecida:
Em um momento de lucidez, ou em retrospectiva, um paciente relata que algumas vezes se sente ou se sentiu como um animal.
Um paciente se comporta de uma maneira que se assemelha ao comportamento de um animal, por exemplo, gritando, rosnando ou rastejando.
De acordo com esses critérios, ou a crença ilusória na transformação atual ou passada, ou o comportamento que sugere que a pessoa se crê transformada, é considerado evidência de licantropia clínica. Os autores destacam que, embora a condição aparentemente seja uma expressão de psicose, não há um diagnóstico específico de doença mental ou neurológica associada às conseqüências comportamentais.

Parece também que a licantropia não é específica para a experiência da transformação homem-lobo. Uma grande variedade de criaturas foi descrita como parte da experiência de transformação. Uma revisão da literatura médica do início de 2004 relaciona mais de trinta casos publicados de licantropia, sendo que apenas a minoria deles tem lobos ou cães por tema. Canídeos logicamente não são incomuns, embora a experiência de transformação em gatos, cavalos, pássaros e tigres tenha sido relatada em mais de uma ocasião, e até transformações em sapos e abelhas foram descritas em alguns casos. Um estudo de caso datado de 1989 descreveu como um indivíduo relatou uma transformação em série, experimentando uma mudança de humano para cão, cavalo, e então, finalmente, gato, antes de retornar à realidade da existência humana depois do tratamento. Há ainda casos de pessoas que experimentaram transformação em um animal descrito apenas como “inespecífico”.

3. Lobisomem Real?


Um dos contos mais "intrigantes" que já ouvi sobre os lobisomens foi o de Peter Stumpp. A "lenda" (aspas. pois o registro histórico existe!) vem do interior da Alemanha nas cidades de Colongne e Bedburg por volta do fim do século XVI. Naquela época o medo dos lobos era tanto que as pessoas evitavam viajar de uma cidade para outra. Pedaços humanos eram encontrados diariamente nos quintais das casas.

Convenhamos que naquela época sem mídia e comunicação como nos dias de hoje, um louco homicida pervertido, sádico e assassino em série tinha um pouco mais de facilidade para atuar. Peter cometeu vários assassinatos, com direito a abusos sexuais e canibalismo. Ele afirmava ter feito um pacto com o Diabo, com isso ele recebera um cinturão mágico com o qual poderia se transformar em lobo.

Garotas jovens que estivessem brincando juntas ou ordenhando vacas eram vítimas preferidas. Normalmente ele as perseguia na forma de lobo, agarrava a mais lenta, estuprava, matava, bebia seu sangue e por fim se alimentava de seu cadáver. Nenhuma punição seria suficiente para seus crimes. Após julgado, Strubbe foi torturado, teve a pele arrancada, os braços e pernas quebrados e por fim foi decapitado. Sua carcaça foi queimada até virar cinzas. Nem mulher e filha foram poupadas: ambas foram queimadas vivas. A história de Strubbe se espalhou pelo país. Sua brutalidade e atrocidades que havia cometido iam além dos padrões humanos.

A fonte mais detalhada do caso é de um panfleto publicado em Londres por volta de 1590, tradução do original alemão, que não sobreviveu a guerra dos trinta anos, apenas duas cópias existem e elas estão em museus na Europa.

Uma cópia (traduzida) deste panfleto está aqui:
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Espero que vocês tenham gostado, e por favor não tenham medo de acrescentar qualquer informação a este tópico! Até mais!

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Re: Lobisomem: A Fera interior e a loucura.

Mensagem por Boromir em Sex Fev 03, 2012 7:16 pm

Narra a condenável vida e morte de um tal Peeter Stubbe, um feiticeiro muito perverso que, à semelhança de um lobo, cometeu muitos assassinatos, continuandoessa prática diabólica por 25 anos, matando e devorando homens, mulheres ecrianças.Pelo mesmo fato foi preso e executado a 31 de outubro passado, na cidade deBedbur [Bedburg] perto da Cidade de Collin [Colônia] na Alemanha.Fielmente traduzido do holandês, de acordo com a cópia impressa em Collin,trazida para a Inglaterra por George Bores, no dia 11 deste mês atual de junho de1590, que tanto viu como ouviu a mesma.

Será que a pouca iluminação da época não contribuiu para que "um tal" Peeter Stubbe não se vestisse com as peles de um lobo caçado e abusasse das lendas e do medo para ter mais palco para suas ambições incompreensíveis?

Acho a lenda muito intrigante, eu sempre digo que nenhuma lenda surge à toa, ainda mais quando ela é contada em diversos cantos do mundo de visões e formas diferentes, mesmo que não houvesse maneira de propagar a lenda tão rapidamente naquele tempo!

Demais!

Ótimo tópico!

Daria um ótimo RPG criminal investigar o assassino, um tal Peeter Stubbe.

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Re: Lobisomem: A Fera interior e a loucura.

Mensagem por Braga em Sex Fev 03, 2012 7:31 pm

Cara, não tenho nada a comentar, simplesmente incrível, minhas palavras foram serradas com o fervor das palavras aí espostas, parabens pela incrível história, realmente um tema memorável, espero que continue.

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Re: Lobisomem: A Fera interior e a loucura.

Mensagem por Lestath em Sab Fev 04, 2012 2:24 pm

Ótimo tópico!

Ótimo mesmo!

Cara, você pesquisa muito mesmo para conseguir encontrar tantas informações, hein?

Lobisomens são demais, uma das feras mais bacanas em mesas de jogo E na vida real!

Lembro que quando eu era adolescente o fantástico exibiu umas reportagens sobre o Lobisomem na terra do Pai Rotieh! Eu lembro bem da matéria, pois eu já era louco com RPG e aquilo me deixou maluco!

Quando conheci o Admin-Pai e descobri que ele mora em MatoGrosso, já mandei: "Terra de Lobisomem!" IUAHDIAUWHDIAWUdh

Acho que ele nem entendeu!

Grande tópico! O problema é que seus tópicos são tão completos que é difícil acrescentarmos algo em nossas respostas! Só nossa admiração mesmo!

Parabéns!

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Re: Lobisomem: A Fera interior e a loucura.

Mensagem por Rotieh em Sab Fev 04, 2012 4:39 pm

Me recordo sim, Lestath. Eu era moleque, mas morava em Três Lagoas, palco da trama toda.

Por lá se falou muito nisso, isso nos anos 90.

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Ótimo tópico! Novamente meus parabéns!

O que Lestath disse é verdade, só podemos deixar aqui nosso agradecimento, pois a qualidade do texto sempre nos ata as mãos na hora de comentar ;)

Mas vou responder ao Boromir.

Cara, é uma boa teoria, acredito que possa ter sido isso, mas tiraria todo o misticismo da lenda ;)

Gosto muito das histórias de lobos que caminham em duas patas aterrorizando regiões. Cada local tem a sua mesmo, aqui no Pantanal é comum se conhecer gente que tenha visto um Lobisomem (para cá no Pantanal mesmo, Três Lagoas onde morei e foi famosa pelo caso é na divisa do estado, onde não tem nada não ser o que resta do cerrado).

É comum pois um dos animais mais bacanas do cerrado (Minha cidade atual é Aquidauana, fica em um ecótono, aqui tem tanto o Pantanal quanto o Cerrado) é o Lobo Guará. É um animal frugívoro, mas tem a capacidade de caminhar por alguns segundos sobre as patas traseiras. É um dos maiores animais do aspecto canino, então estar "em pé" sobre as patas traseiras lhe concede uma altura mais elevada que muitos seres humanos!

Como é relativamente comum nesta região, durante a noite nas fazendas ou casas mais afastadas sempre se ouve falar de quem tenha visto um homem com corpo de lobo caminhando pelos bosques ou até perto das pastagens!!!

Mesmo sendo biólogo e conhecendo deste fato, se eu visse uma cena destas eu cavaria um buraco e me enterraria até o amanhecer.

;)

Um ótimo RPG mesmo ^^

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Só postei o lance do lobo-guará para ilustrar que esta lenda faz parte do cotidiano de muitos pantaneiros, o que é bem bacana ^^ não quero nunca acabar com a magia do tópico ~^

Parabéns novamente!! =D

E obrigado por nos brindar com conteúdo de ótima qualidade!
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Re: Lobisomem: A Fera interior e a loucura.

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